Que as pessoas estavam enlouquecendo ultimamente eu já sabia, agora, que aquela nojenta, previsível e fútil da minha sala iria me perseguir até minha casa, ah! Essa era nova pra mim...
Dei uma olhada ao redor e a casa estava vazia, mas ainda podia ouvir alguns gritos vindos da parte de trás, acompanhados de algumas risadas... Deveria ser minha mãe correndo atrás do meu primo; aliás, que horas meu tio viria buscar aquela peste? Ah, mas alguém me daria um novo CD, toda vez que o Alexander vem aqui em casa ele quebra alguma coisa, e agora meu CD favorito, não era justo! Mas voltando à ruiva que estava parada na minha frente, me encarando, com aquele sorriso torto. Ela invade minha casa e tudo que tem a dizer é “Oi, Joanne”? Odiei aquela arrogância na voz dela. E também, o que minha mãe tinha na cabeça para deixar ela entrar? Bah, estou rodeada de malucas.
-Então, você já pesquisou alguma coisa? –ela perguntou, ainda com aquela cara “inocente”.Ah, de inocente ela não tinha nada.
-Pesquisar? Sobre...? –eu continuei, não que eu quisesse conversar com ela, mas se a conversa acabasse logo, talvez ela fosse embora de uma vez –E outra, como você achou minha casa? –eu já sabia a resposta, só queria mesmo saber que cara ela iria fazer ao responder minha pergunta.
-O trabalho de Literatura. Você não começou, não é? Isso significa que temos muito trabalho então...-ela soltou um suspiro desanimado, típico de pessoas preguiçosas. Há, ela pretendia mesmo fazer o trabalho comigo? Nem sonhando, não gosto dela, para mim é impossível conviver com alguém como ela, nós não temos nada em comum.
-Não vou fazer o trabalho com você –soltei logo, antes que ela se empolgasse e entendesse tudo errado. Acho que a expressão que eu fiz deve ter sido um pouco assustadora, mas essa não foi a intenção, eu só queria mesmo que ela fosse embora logo, assim eu poderia gritar com Alexander o quanto eu quisesse.
-Você não tem grupo, e o professor já falou que não aceitará trabalhos individuais; e todos da sala já têm seus grupos. Sua escolha: faz comigo ou fica sem nota –ela disse, sem a mínima hesitação, e com toda a cara de pau do mundo. Ridícula! Ela pegou no meu ponto fraco. Eu a odiava agora mais que nunca, mas eu tinha consciência da situação: nenhum grupo se daria ao trabalho de me incluir no trabalho, e eu não estava a fim de ficar sem nota e levar um esporro do professor e da minha mãe; é eu ia ter de concordar com esse absurdo.
-Ah, esqueci de te avisar Joanne, sua amiga estava parada na porta, então eu pedi a ela que entrasse. Não consegui te chamar porque tive que correr atrás dessa delicinha aqui! –ela falou as últimas palavras com um tom mais infantil tornou a fazer cócegas no Alex. Bah, mãe, sua inconseqüente, onde no mundo você acharia que ela seria uma amiga minha? Olha bem para ela, olha bem o short de cintura alta, camisa branca de estampa, colete, touca, meia calça... Bah, essa garota não tinha nada, na-da a ver comigo.
-Depois traz chocolate pra gente –eu murmurei baixo, vencida. Odiava admitir derrota, mas essa ruiva tinha me vencido sem ao menos me dar direito de resposta. Subimos o segundo andar até a parte dos fundos, onde ficava o meu quarto. Minha toalha ainda estava jogada em cima da cama, eu não tive tempo de arrumá-la já que parti em busca àquela peste que se autodenomina meu primo. Peguei a droga da toalha e pendurei atrás da porta do banheiro; voltei para o quarto e aquela garota já estava com suas coisas espalhadas pelo meu chão, que saco. Passei direto pela cara concentrada dela e fui procurar um CD decente para servir de “fundo musicas ambiente” para minha péssima noite. Escolhi Franz Ferdinand, nada poderia me animar mais que Franz, e se o Kapranos não conseguisse, então nenhum outro conseguiria. Peguei o CD mais velho deles e botei “Michael” para tocar. Não sei porque, mas a ruiva deu um risinho assim que o instrumental começou. Talvez ela achasse minha música ridícula.
-O que foi, incomodada com a música? –alfinetei. Ela já invadiu minha casa, me chantageou –e me derrotou- e agora zombava da minha música? Eu estava quase preferindo ficar sem nota.
-Não, pelo contrário. Então, eu trouxe cartolina dessas 3 cores para o cartaz, qual você prefere? –ela continuou, ignorando completamente minhas insinuações. Tsc, irritante. Ficamos ali por horas, e eu tinha de admitir: nós éramos uma boa dupla, e tudo era simples mas estava ficando muito bom. Inconscientemente o clima se desfez, e quando dei por mim, estava completamente envolvida não só no trabalho, mas acho que um pouco com ela também; estava até rindo do jeito meio desajeitado dela. Depois de tanto nos esforçarmos, minha mãe trouxe refrigerante para as duas.
-Um brinde ao nosso trabalho decente –não pude deixar de falar. Ergui minha latinha e bati na dela, e rimos muito desse brinde besta. Quando reparei na música, estava tocando novamente a introdução de Michael, isso significa que demoramos um bom tempo para terminar. A ruiva estava com uma cara de êxtase comendo uma barra de chocolate que ela havia tirado da bolsa, e acho que ela reparou que eu estava prestando atenção naquela euforia no semblante dela.
-Ignore, é que eu gosto muito de chocolate, muito, muito, muito, eu gostaria de comer todos os dias, mas não posso porque chocolate me dá muita espinhas, e se eu ficar cheia de espinhas terei então que ouvir um sermão da Britt. Aliás, não faça mau juízo dela. Foi ela quem me mandou aqui sim, eu sei que você passou a noite inteira se perguntando isso, mas a idéia foi minha, eu apenas a incentivei a me mandar vir aqui, assim eu teria uma desculpa para te ver. Pode parecer idiota, mas passar a noite fazendo uma coisa tão simples quanto um trabalho com você, e agora comer chocolate, isso me faz feliz; eu fico feliz com coisas bobas –ela simplesmente jogou tudo isso assim, na minha cara. Eu não entendia como ela conseguia não só ser tão sincera com seus sentimentos, mas conseguir transformá-los em palavras e conseguir dizê-los a quem ela queria dizer. Para mim, isso era impressionante –e você ainda botou uma das minhas músicas preferidas para tocar. Se é coincidência, eu não sei, só sei que estou no ápice –ela continuou, jogando um sorriso e virando a cabeça para o teto, e eu pude ver que ela começava a balançar a cabeça, e então começou a cantar. Eu não pude evitar de começar a cantar junto, e então ela olhou pra mim, e começou a cantar para mim, seus olhos estavam fixos e pareciam maravilhados, ela estava quase chorando. Quando percebi, estava totalmente jogada à maré que ela me deixou, estava pulando junto com ela e fazendo meus costumeiros movimentos esquisitos, e nós duas parecíamos loucas. Nunca, nunca ninguém tinha conseguido me “desdobrar” assim tão fácil. Acho que ela era realmente diferente do que eu pensava.
Acabou a maluquice e ela foi embora, mas deixou todo o material na minha casa, assim como deixou toda minha cabeça perturbada, acho que fiquei a noite inteira, ou um bom pedaço dela, pensando como ela conseguira aquele feito. De qualquer maneira, não importava.
Eu odiava muito aula de matemática, tinha assistido apenas uma, e ainda assim era demais para mim; não assistiria essa de agora. Aliás, exatas não era comigo. Para falar a verdade, nada era comigo, odiava estudar, só estudava para as provas, e ainda assim só para tirar seis. Hoje mudei meu “itinerário”, os meninos não poderiam vir, então ao invés de ir para o jardim interno daquele Prédio abandonado, eu fui para o terraço; era um dia mais quente, então o tempo ali deveria estar uma delícia, e realmente estava. Fechei a porta atrás de mim silenciosamente e sentei encostada em uma mureta. Dava para ver que havia mais alguns matadores de aula ali em cima, eles pareciam fazer um piquenique, mas acho que nem me notariam, eu estava do outro lado e estava completamente quieta, parecia mais um fantasma. Abri minha mochila para pegar o ipod e reparei que os dois CDs ainda estavam lá. Culpa daquela ruiva –eu sempre a chamava de ruiva, e ela ficava irritada com isso- mas eu não pude deixar de soltar um risinho abafado ao lembrar-me dela. Fazia duas semanas desde aquela aparição esquisita em minha casa, e agora todos os dias ela vinha falar comigo. Claro, sempre naquele jeito ameaçadoramente arrasante, mas eu sabia que na verdade ela estava tentando ser fofa e legal comigo. Ela era muito esperta, não só roubou meu CD do Sex Pistols da minha casa naquele dia do trabalho sem eu perceber como me deu um CD do Red Hot Chili Peppers junto ao devolver meu Sex Pistols, acho que isso significa que eu tinha que ouvir o CD dela e então devolvê-lo. Se bem que eu já tinha aquele CD, e tinha que me lembrar de entregá-la, afinal eu tenho péssima memória com essas coisas, se a pessoa não me lembrar que eu tenho algo dela comigo, eu não vou lembrar-me de devolver. Não é intencional, eu simplesmente não lembro mesmo. Estava tão absorta em meus próprios pensamentos que não reparei no silêncio que tinha ficado e nas duas pessoas que se aproximavam de mim.
-Mas você é muito cara de pau mesmo, né? Ainda não reparou, que ninguém te quer aqui? –eu ouvi essa voz arrogante interrompendo meus pensamentos. Era aquela nojenta, a “chefe” da ruiva, e a seguidora mais puxa saco, uma morena, sabe-se lá o nome dessa aí. Então eram elas que estavam começando a montar aquele pequeno piquenique do outro lado. Que arrogantes! Eu nem estava atrapalhando, mas que saco. Peguei minha bolsa e comecei a levantar, mas levei um bico na canela da morena. –Senta aí –resmungou a branquela, a tal da Britt.
-Você acha mesmo que ela gosta de você? –ela começou. Acho que o que me restava era ouvir aquele sermão patético, fazer o quê –Quem você pensa que é, para roubar a minha melhor amiga? Para de tentar virar amiguinha dela, você nunca será uma de nós, e nunca roubará a Alice de mim. Então acorde para a vida e pare de fazer cena, senão eu acabo com você, mas é claro que isso você já sabe, não? –ela concluiu, com um sorrisinho torto e teoricamente amarelo, uma cara de deboche que me fez queimar de raiva. Eu, querer ser uma nojenta como ela? Ah, faça-me rir, nunca eu seria alguém assim, e eu sou pavio-curto, não levo desaforo para casa, eu não iria levar aquele.
-E você pensa que é quem? Não ache que todos querem essa vida falsa que você leva. Só, por favor, pare de falar da minha vida como se você soubesse algo dela; isso é a coisa que eu mais odeio, que falem de mim. Então, se você já acabou, eu vou embora, esse clima é demais para mim, pode continuar com seu piquenique –eu terminei, juntei minha bolsa e comecei a andar, ela ainda estava de costas, mas a seguidora morena me olhava atônita.
-Você sabe o que fazer –foi a única coisa que ela disse, e a morena avançou para cima de mim, enquanto a outra saía andando tranquilamente. Ah, por favor, parem de dramatizar, elas iriam fazer o quê, me matar? Elas não podem. Continuei a andar sem o menos medo, mas acho que isso só deixou a morena mais furiosa comigo. É, eu estava enganada, acho que eu iria morrer mesmo. A morena me jogou no chão, estava agora puxando meu cabelo, ia sussurrar algo no meu ouvido, acho. Ah, como aquilo doía, eu só queria que ela me largasse, mas ela estava com toda sua força no pé, que esmagava minha mão, e aquilo doía pra cacete.
-haha, sua vagabundinha, achou que eu não ia fazer nada, né? Enganou-se, que bonitinha. Ei, que palavras bonitas eram aquelas, ein? Onde estão suas palavras bonitas agora? Me diz. Ah, ficou irritadinha que nossa ruivinha não gosta de você para valer? E você achou que ela gostava mesmo? Nossa você é mesmo ingênua, né? –ela continuou, amassando meu braço com mais força, eu deixei um gritinho abafado sair, aquilo estava doendo muito mesmo, de onde veio essa força toda dessa magrela maldita? –você acha que alguém como ela vai gostar de uma piranha como você? Porque você sabe o que falam de você aqui, claro que sabe. Piranha, lésbica, viciada, burra, arrogante, será que é tudo verdade? –aquela vagabunda era insuportável, como eu queria socá-la. Eu queria muito que ela me soltasse, eu bateria tanto nela. Meus braços estavam cada vez mais sendo esmagados; eu sei que ela não faria nada de extremo porque senão teriam provas contra ela, mas ela poderia me causar o tanto de dor que quisesse sem quebrar nada meu, e acho que ela tinha consciência disso, porque ela chutou minha barriga e voltou a esmagar meu braço com o pé; eu queria gritar, mas não daria o braço a torcer; eu fechei meus olhos, e tudo foi rápido: o vidro quebrando, um par de pés correndo, um tapa sendo desferido na cara da morena, meus braços, agora com marcar vermelhas, voltando ao normal, nenhuma mão no meu cabelo, aquele hálito azedo e arrogante tinha ido embora. Abri meus olhos, e ela estava lá, aquela ruiva metida. Eu já estava achando que ela era parte do plano, sabe? Será que ela tinha vindo por mim, ou sabe-se lá o motivo dela, mas eu estava contente com a aparição dela
-acho que você estava se descrevendo. Desce agora, não quero mais você com ela, se alguém tem que ensinar a hierarquia dessa escola, esse alguém sou eu, eu fiquei responsável por ela, se alguém tiver que bater nela, serei eu, não você –ela falou, séria, e a morena acatou a “ordem”, com um sorriso torto no rosto. Eu podia vê-la murmurar um “eu te falei” bem debochado enquanto saía do meu campo de visão.
Eu não podia acreditar que tudo que aquela vaca morena disse era verdade, que eu passei aquela noite acordada, que eu ri e cantei junto com essa idiota, que eu estava feliz quando ela apareceu. Mas quer saber, não sei por que achei que dessa vez seria diferente, não sei por que achei que eu poderia confiar mesmo naquelas palavras, era tudo mentira, afinal, ela era a vice da escola, era de se esperar que ela fosse falsa, cruel. Eu podia me fazer de forte, mas eu queria chorar, eu queria chorar muito; não consegui prender, e percebi que algumas lágrimas salgavam meu rosto. Eu não tinha força para levantar, eu não queria levantar. Eu merecia mesmo ser castigada por ser tão burra.
-Já deve ter passado tempo suficiente para simular uma briga entre nós duas. Desculpe Joanne, isso não vai mais acontecer. Pode ficar aqui o tempo que precisar para se acalmar, elas não vão subir de novo. E pode ficar com o CD, elas irão estranhar se nós nos falarmos novamente. Desculpa, desculpa mesmo por isso tudo. Eu queria mesmo que você me chamasse de amiga. –ela finalizou, eu podia ver que seus olhos eram sérios e tristes. Ela era sempre tão avoada e divertida, agora eu podia ver o que ela quis dizer. Eu não queria perder alguém assim. Ela me deu um abraço, como se aquilo fosse nossa despedida, mas que coisa dramática. Mesmo assim, o abraço dela era aconchegante, era como se ela realmente quisesse com todas as forças me abraçar, e era tudo que eu precisava naquele momento. Não palavras, mas gestos. Minhas lágrimas caíam como nunca, acho que eu estava molhando o cabelo dela e sujando sua blusa. Ela me deu um beijo na testa, demorado, me sussurrou mais um “desculpa”. Eu não queria que ela me largasse, mas ela já tinha se virado, ela já estava andando.
-Alice –eu consegui sussurrar; inconscientemente eu havia estendido minha mão e puxado sua blusa; não sei se isso a parou, ou se foi o fato de minha voz trêmula e soluçante tê-la chamado pelo nome –Se você é minha amiga... –eu continuei. Sou tão egoísta, acho -...então fique comigo.
A última coisa que eu pude ver foi ela dando um riso torto –eu estava esperando essa frase.
E eu me acabei em lágrimas, naqueles braços que me confortavam.
Nenhum comentário:
Postar um comentário